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Acesso de Raiva
O jovem pai estando no seu computador, depois de um dia de trabalho, presencia a admoestação da mãe ao filho de doze anos, que tem sempre dificuldade de cumprir seus horários relativos às tarefas escolares. Nessa idade tem a cabecinha presa às outras atividades como esportes, computador e televisão. A gritaria é grande e se sente na obrigação de intervir, para apoiar a mãe e ao mesmo tempo mostrar sua autoridade sobre o filho. A raiva nasce dentro de si e com apoio de seus companheiros espirituais, sintonizados na freqüência desses pensamentos agressivos, ela cresce a ponto de levantar-se e agredir o filho.

Esse pai não odeia o filho. O ódio e a raiva são bem diferentes. A raiva é um sentimento explosivo, passageiro, misto de autodefesa e de agressão. Faz sair de dentro de nós uma força, uma vontade agressiva que normalmente não temos. Por isso quando somos ofendidos ou agredidos brota de dentro de nós um desejo e uma força sobre os quais não temos controle. Ou precisamos estar muito equilibrados para contê-los.

As conseqüências muitas vezes são nefastas. Reagimos ou agimos pela raiva e depois não temos como consertar. Quando o remorso advém, ficamos pensando arrependidos porque agimos daquela maneira. Diz Joanna de Angelis, orientadora espiritual, que o sentimento de culpa é importante para a correção do erro porque é o primeiro passo. Esse sentimento precede o remorso e a disposição de corrigir, só que muitas vezes não surge espontaneamente ou imediatamente. Nossa razão, passados os primeiros momentos é que nos desperta e nos cobra. Outras vezes são cobranças exteriores que nos levam a senti-la.

Despertado o remorso pela culpa, de certa forma estamos no caminho certo. O respeito ao nosso próximo, o amor a quem ofendemos ou agredimos, cobra uma correção. Começaremos perdoando o causador de nossa raiva ou a nós mesmo, se percebemos que só nós somos os culpados. Em seguida, nossa razão permite estabelecermos ações de correção de comportamento, um pedido de desculpas, um abraço afetivo, ou tudo isso junto. Se perdoarmos e formos perdoados podemos apagar para sempre o assunto, embora, possamos como ideal desejar que não sejamos capazes de repetir.

Muitas vezes as agressões ficam sem a borracha corretora do perdão. Nesses casos podemos ter não só ódios profundos acumulados, mas também desenvolvimento de doenças mentais, aliás, de ambos os lados. O exemplo dado não é importante, serve apenas para verificarmos como é simples sermos colhidos pela raiva e a que ponto um simples sentimento de minutos pode afetar uma vida inteira. Um comportamento desse tipo repetido por esse pai, acarretará no futuro um mau relacionamento do filho para com o pai, que poderá chegar a um desamor profundo.

Nossa Doutrina ensina que cabe ao pai o comportamento de melhor qualidade, pois o filho aí está para ser ensinado, inclusive com relação ao amor ao próximo. Reações agressivas e repentinas podem dar ao filho o exemplo de como deverá conduzir a educação de seu futuro filho. O que, quem sabe, já causou o estrago que vemos na forma de conduta desse jovem pai.

Conhecemos o relato de um pai alcoólatra e irresponsável causador de uma vida terrível para família e que teve conseqüências na vida de seus dois filhos gêmeos quando adultos. Um se entregou a uma vida de sacrifícios para atingir na madureza uma posição social importante e o outro, estar na mesma época, internado em um manicômio, drogado e considerado irrecuperável. O primeiro disse em entrevista à imprensa no dia que assumiu a presidência de uma grande empresa multinacional: Eu lutei muito porque tive como exemplo um pai fracassado. Ou outro, respondendo a mesma pergunta alegou: o que vocês queriam, tive um pai alcoólatra e irresponsável. Assim é: não podemos controlar e muitas vezes sequer avaliar a extensão de nossos atos.

Não vamos nos desesperar por erros cometidos, vamos corrigir. Confiança é muito difícil de recuperar, mas não impossível. O amor é bálsamo de todas as dores, cicatrizante de feridas profundas. E saibamos que o remédio para raiva tem nome difícil e muito mais difícil ainda é aplicá-lo: chama-se alteridade. Palavra com sentido novo, pouco encontra na literatura, significa se colocar no lugar do outro e desse ponto de vista com ele se relacionar, ou seja, aceitar as pessoas como elas são. Se eu aprendo a aceitar todos, não importado a idade, o sexo, a origem, o status social, como são, mesmo que não concorde com seu comportamento ou modo de pensar, não vou sentir raiva, ou muito raramente a sentirei. Não nos cabe julgar, nem estabelecer castigos. Cada um é como é, construído pelas conseqüências de seus próprios atos e condutas. Somos as conseqüências das escolhas que fazemos... e o outro também.
Voltar - 15/03/2011 - EDGARD A. N. GONÇALVES

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